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Edição  dia  03/09/2010
 

 
ESPECIAL
Entrevista

Ela quer ajudar quem enfrenta os mesmos problemas
Quando um leitor indicou o seu nome, sabíamos que a entrevista traria desafios. O primeiro apresentou-se na hora de marcar a conversa. O já comum telefonema, seguido de uma longa explicação sobre os objetivos da matéria, teve que ser resumido em alguns caracteres de uma mensagem por celular. Indiara Caroline Rigatti (24) é surda desde pequena, nem por isso deixou de estudar, cursar o Magistério e hoje ser aluna de graduação em Letras/Libras da Ufrgs, em Porto Alegre. Havia ali uma bela história para contar, mas como consegui-la? Uma colega jornalista, que havia tido uma conversa com Indiara há algum tempo, adiantou que a mesma seria acompanhada pela mãe, o que não ocorreu.  Éramos eu, ela e minha colega Simone Jantsch, na função de fotógrafa. Se entrevistar é a arte de dialogar, com Indiara o desafio foi maior: falar, ouvir, entender e fazer-se entender. Os 40 minutos de conversa começaram tensos. A menina de olhos castanhos e cabelo ondulado demonstrava-se aflita. Se nós repórteres estávamos, não podíamos esperar menos dela.

NG: Você é surda desde pequena? Como foi conviver com essa deficiência?
Indiara:
Quando meus pais descobriram minha surdez, aos oito meses de vida, procuraram médicos para saber o motivo. Eu não tive nenhuma doença, por isso acreditamos que é genético. Eu aprendi a falar só aos oito anos. Desde os dois, quando comecei a frequentar a fonoaudióloga e a usar aparelho auditivo, aprendi a ler os lábios. Foi assim, lendo os lábios e fazendo gestos e mímicas que me comuniquei até aprender a falar.

NG: Para você aprender a ler e a escrever, teve que estudar em escola normal e especial. Conte-nos sobre isso.
Indiara:
Estudei em escola normal. Foi bastante difícil, porque a primeira série eu terminei sem saber ler nem escrever. Os professores não estão prontos para acompanhar turmas com deficientes auditivos, era muito difícil acompanhar só pelo labial. Então, tive que fazer uma escola paralela, em Lajeado, especial para surdos. Aos dez anos aprendi a me comunicar pela Língua Brasileira de Sinais (Libra), na Escola Fernandes Vieira, em Lajeado. Aprendi primeiro o alfabeto manual, depois quando fiz mais amizades aprendi os sinais. Eu gostava muito de estudar na escola normal, nunca tive intérprete, minha mãe me ajudava muito. Quando fui para o Magistério, no Instituto Estadual de Educação Estrela da Manhã (Ieeem), eu deixei a escola especial.

NG: Em uma escola normal, o aprendizado torna-se difícil?
Indiara:
Era muito difícil estudar, porque não tinha intérprete. Eu fui à Coordenadoria de Educação, procuraram por quatro anos e não conseguiram um. Quando a professora está olhando para mim, é tranquilo. Mas quando o professor vira-se para escrever no quadro ou de lado, eu já não entendo. Trabalhos em grupo eu preferia fazer individualmente, porque nem sempre consigo entender os colegas.

NG: Você fez o Magistério com a intenção de tornar-se professora?
Indiara:
Eu tenho o sonho de ser professora de libras para crianças surdas. Trabalho atualmente na Univates, desde 2005, dando aulas de libras. Agora consegui um emprego na Escola Madre Bárbara, em Lajeado, também com aula de libras. Gosto de ajudar as crianças, pois não tive essa ajuda na infância. Aqui, em Estrela, não tem.

NG: É muito difícil comunicar-se com ouvintes? Aprender libras é complicado?
Indiara:
Algumas poucas pessoas sabem libras. Há dificuldades para os não-surdos por causa da complexidade dos sinais. Eu acredito que boa parte da falta de comunicação se dá pelo medo. As pessoas não-surdas acham que os surdos não vão entender o que eles querem dizer com os sinais, ou entender de forma errada. A amizade com uma pessoa surda faz a diferença na hora do aprendizado, senão o processo é bem demorado. Eu dou aulas de libra em vários módulos, cada um de 60 horas.

NG: Ao menos os professores deveriam estar capacitados para lidar com as diferenças. Qual a importância destes profissionais aprenderem libras?
Indiara:
Já é lei, número 10.436 de 2002. Os professores precisam fazer aulas de libras para poderem se comunicar com as crianças surdas. Antigamente havia muito preconceito, mas isso está passando. Agora estou preocupada porque está aumentando o número de crianças surdas que estão fazendo implantes cocleares (veja box). Ele limita muito a vida delas, pois não podem fazer uma série de atividades como tomar banho de piscina e até devem evitar quedas. Mas é algo que está sendo bastante divulgado, inclusive será retratado na novela Cama de Gato, na Rede Globo.

NG: Esses problemas só se agravam em outros ambientes, não é verdade?
Indiara:
Sim. No mercado, quando vou sozinha, as vezes não me entendem, então eu aponto para o que eu quero, tipo, no açougue. As pessoas não estão preparadas para lidar com os surdos. Todos os lugares deveriam ter gente preparada: farmácias, mercados, lojas.

NG: Você tem muitos amigos? Amigos ouvintes?
Indiara:
Eu tenho muitos amigos aqui, mas também em outros estados. A maioria são surdos. Primeiro eu só tinha amigos ouvintes, mas, depois que comecei a estudar libras, passei a ter vários amigos surdos e me afastei um pouco dos ouvintes. Agora voltei, porque tenho um namorado ouvinte e acabei criando um novo ciclo de amizades.

NG: E na família, você já conquistou sua independência?
Indiara:
Meus pais nunca aprenderam libras, minha mãe sabe só um pouco. Eu viajo sozinha, faço vários seminários. Me viro sozinha. Antes meus pais me cuidavam demais, nunca me deixavam sair. Eu comecei a sair com amigos aos 18 anos. Eles tinham medo que alguém me fizesse de boba, mas isso nunca aconteceu. Hoje sou bem independente.

NG: Qual o seu maior sonho?
Indiara:
Meu sonho já estou realizado, que é o de ser professora. Quero trabalhar em uma escola. Fiquei tão feliz porque ontem eu fiz uma prova de práticas de mãos em Porto Alegre e fui aprovada.

NG: Um medo?
Indiara:
Medo? Medo... Olha, tenho medo que as crianças que dependem da libras para se desenvolver não tenham acesso e também de que as pessoas se afastem de mim por preconceito.

Implantes cocleares
O implante coclear é composto de dois sistemas principais: um externo e um interno. O sistema externo é composto de três partes: um processador de som, um microfone e um transmissor. O sistema interno apresenta um receptor e um arranjo de eletrodos.


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