`As pessoas da comunidade não imaginavam que um rapaz tão novo daria conta dos grupos de danças”
Era tarde de segunda-feira quando resolvemos contatar Andréas Hamester (46), fiscal ambiental e instrutor dos Grupos de Danças Folclóricas Alemãs de Estrela. Ligação um tanto ruim, as palavras que consegui ouvir após dizer que ele seria a pessoa que abriria as entrevistas especiais de 2010 e se aceitaria tal convite foram: “Me sinto orgulhoso”. Que bom! A entrevista fora marcada para o dia seguinte, manhã de terça-feira.
O local escolhido por Andréas remete aos tempos em que ainda era guri. Um guri de apenas 3 anos, que já iniciava a caminhada perante o grupo de pessoas que hoje lhe é família também – como ele mesmo afirma. A iniciativa partiu dos pais de Hamester, Marino e Nilda, contando com a companhia da irmã Agnes, que igualmente dançou nos grupos. Hoje, como instrutor, o estrelense nato projeta inúmeros objetivos que, com certeza, realizará.
NG: Andréas, em primeiro lugar, conte-nos como você aproveitou sua infância e como ocorreu sua inserção no Grupo de Danças Folclóricas Alemãs, grupo do qual hoje você é instrutor.
Hamester: Sou estrelense nato e desde que nasci – até hoje – sempre morei na mesma residência. Morei com meus pais e, ao lado da casa deles, construí a minha. Lembro que minha infância foi muito bacana, de brincar na rua. Não existia aparelho celular, logicamente. Então, os pais queriam apenas saber que horas os filhos voltariam para casa para tomar café. Também nunca ouvíamos falar sobre problemas com drogas e em nada disso. Era uma coisa muito bonita: a infância era fazer o “tema” e depois sair para brincar. Acredito que nesse período – o da infância – é que criei o gosto para lidar com pessoas, pois desde a pré-adolescência eu era metido em agremiações estudantis e demais lideranças.
NG: É na infância, também, que ocorre o início de sua participação nos grupos folclóricos. Como se deu isso?
Hamester: Naquela época, as famílias ligadas a Comunidade Evangélica tinham como tradição participar, se integrar aos grupos de danças. Meus pais – que também dançavam – me incentivaram desde bem pequeno e com três aninhos comecei a participar do Grupo. Minha irmã e eu fomos incentivados desde pequenos a participar. Hoje, eu percebo que muito mais do que a Comunidade Evangélica, mas a comunidade estrelense em seu todo tem por uma boa tradição a de levar as crianças para dançar no Grupo.
NG: Você acredita que essa participação desde pequeno tenha influenciado na pessoa que você é?
Hamester: Eu acho que o que mais interferiu em meu caráter foi a influência de meus pais e o que eu pude resumir da educação deles é que eles me davam liberdade com responsabilidade. Eu sempre tive muita liberdade de poder sair, de acampar, de poder viajar desde bem novo. Sempre tive uma vida de bastante liberdade. Eu não sei como eles fizeram, mas eu sempre tive essa sensação também de responsabilidade quanto a essa liberdade. Isso foi muito importante.
NG: Essa é a principal lição passada por seus pais?
Hamester: Sem dúvidas. Essa liberdade que eles me davam – com responsabilidade – foi incrível. Claro que eu fiz várias coisas erradas, mas eles nunca me bateram, eu nunca apanhei. Porém, eu sofria tanto, me sentia tão culpado quando eles conversavam comigo a respeito de algo que eu não devia ter feito... Então, era uma relação muito interessante. Eu quero ver se consigo adotar a mesma educação com os filhos.
NG: Então, aos 18 anos você assumiu como instrutor do Grupo de Danças, deixando inclusive de cursar a faculdade. Você disse que passou em dois vestibulares, mas não cursou por optar ser instrutor. Como isso ocorreu?
Hamester: Sou o quinto instrutor que o Grupo teve e o primeiro que é de Estrela, que é nascido no Grupo, que surgiu do Grupo. Os outros eram de fora. Tive origem no Grupo – e agora faz 24 anos. Em 1985 eu comecei, e antes eu já era metido também. Era auxiliar do instrutor, na época... E já coordenada uma parte do Grupo, coisas assim. No entanto, eu já imaginava um Grupo bem diferente. Eu tinha ideias para um Grupo diferente.
NG: Aos 18 anos você já tinha uma perspectiva diferente?
Hamester: Eu tinha muita coisa na cabeça já, do que eu queria desse grupo. Pois na época, em 1985, existiam quatro grupos folclóricos no Estado do Rio Grande do Sul. Vamos dizer que nós éramos sozinhos no “mercado”. Eram poucos. E eu pensava que podia ser muito diferente, muito melhor. Tanto que eu assumi o Grupo com quatro categorias e cerca de cem pessoas que participavam, o grupo oficial tinha nove pares, um traje típico e as viagens eram raríssimas para fora do Estado. Muito raras mesmo. Hoje nós temos 12 categorias, 440 dançarinos, o grupo oficial tem 54 dançarinos titulares mais um grupo de apoio, ou grupo de espera. Somente o grupo oficial tem dez jogos de trajes ao invés de um e as viagens são incontáveis. Já alcançamos 1880 apresentações, isso em 14 países da América Latina e Europa.
NG: Quando você recebeu o convite para ser instrutor, você deseja isso?
Hamester: Eu desejava. Na época, as pessoas da comunidade não imaginavam que um rapaz tão novo – e surgido daqui – fosse dar conta do Grupo. Então, cogitaram-se todas as opções antes de mim. Várias pessoas foram consultadas, eu era a última opção.
NG: Existe algum arrependimento por ter seguido esse caminho?
Hamester: Não, por nada. Eu faria tudo novamente. Hoje, voltando assim, porque quando se trabalha com pessoas continuamente, começa-se a conhecer as pessoas e descobre-se que elas são “muito, muito, muito” diferentes umas das outras. Então, eu acho que meu principal trabalho aqui nem é tanto na questão da dança, mas justamente por trabalhar com as pessoas.
NG: A metade dos integrantes do Grupo de Danças é de jovens. Você se considera um pouco como pai deles? Ou eles lhe consideram como pai?
Hamester: Não, não. Eu acho que me consideram como irmão mais velho. Sabe por quê? Porque poucos deles têm medo de mim (risos). E eu não quero que eles tenham medo, quero que eles tenham consideração.
NG: Também faz parte da sua família o Grupo Folclórico?
Hamester: Sem dúvidas, e nesse grupo eu tenho bastante apoiadores e incentivadores.
NG: E você já pensou em largá-lo?
Hamester: Já, já pensei sim. Olha, existiram três momentos em que eu pensei em largar o Grupo. Na primeira vez achei que faltava um pouco de consideração; então eu larguei e depois algumas pessoas me procuraram para conversar e eu reconsiderei. Depois disso eu recebi propostas financeiras muito boas. Pensei, pensei, pensei... Porém, naquela época eu tinha coisas muito boas para realizar, coisas importantes para o Grupo e assim, contei como mais interessante para mim. Fico contente de não ter ido, não me arrependo disso. Por último, através de uma avaliação pessoal minha, cheguei ao ponto de me questionar se eu estava realmente fazendo tudo certo. Por isso, acabei realizando uma avaliação com o próprio Grupo – sem que as pessoas se identificassem – e, para minha admiração, 100% do grupo quis que eu ficasse.
NG: E se, em algum dia, você deixar o Grupo? Pensou em como será?
Hamester: Se algum dia eu deixar o Grupo Folclórico quero deixá-lo como um grupo fantástico. Cada vez melhor.
NG: Pode-se dizer que o Grupo é sua vida?
Hamester: É sim. Toda hora eu penso no Grupo.
NG: Uma qualidade?
Hamester: Persistência. Quem não tem persistência, não consegue fazer muita coisa, pois nem tudo é possível ser feito logo. E, quando não dá certo de um jeito, tem que correr atrás de outro. Ou espera-se o momento certo. Muitas coisas não dão certo porque não era a hora certa, porém, não deve-se desistir. No entanto, a persistência não deve ser confundida com teimosia.
NG: Um defeito?
Hamester: Um defeito? Deixa eu pensar bem, para ser bem sincero. Um defeito? Pode falar mais? (risos). Ah! Algo que eu acho muito feio é que eu poderia dar mais atenção a algumas pessoas, às vezes. Outro defeito é que eu sou muito egoísta, isso por alguns motivos. Um deles por não ter filhos, e quem não tem filhos não está disposto a se dedicar a uma pessoa – ter um filho é dedicar-se completamente, é diferente de tudo. Nesse ponto eu sou eu egoísta, pois eu sei que meus pais querem que eu tenha um filho para dar um neto a eles, a pessoa que está comigo deseja ter um filho também (risos)...
Filhos
Durante a entrevista, Andréas ressalta a importância da educação recebida pelos pais e que a mesma pretende aplicar aos filhos. Quando questionado se ainda deseja tê-los, Hamester declara que sim, deixando claro que isso deve acontecer em 2011. “Nunca tive muita vontade de ter filhos, não tenho essa carência, mas quero ser um bom pai. Então, deixei para um momento em que eu quisesse, mesmo”, afirma. Ele pensa já ter passado da idade de ter filhos, mas se acha uma pessoa bastante dinâmica, jovial no pensamento e nas atitudes também. É por isso que Andréas acredita que poderá acompanhar bem o filho.